
Antelóquio
– “Você já percebeu que Nossas Almas estão se tornando serenas e benevolentes? Será o peso dos tempos? A essas rolinhas, antes tão aflitas, não é dada nenhuma liberdade de escolha”?
Para levar Nossas Almas a vibrarem novamente, como as cordas de uma harpa ressoam as oitavas, numa seivosa insurgência contra a insidiosa inatividade e feiúra de suas rugas, fazemo-las laborarem não na Divina (Dante Alighieri), nem na Humana (Honoré de Balzac), tampouco na Intelectual (Paul Valéry), mas na descredenciada Comédia Educacional. Pois, sabemos, sentem as Almas atrozes pruridos de descomporem as Idéias Feitas, que florescem (e colonizam) os caminhos bem ordenados do Jardim da Educação (até seus confins), ocupando o lugar de belas (e falsas) Verdades Evidentes, quais sejam: galimatias, inépcias rutilantes, flagrantes certezas, ignorâncias felizes, grosseiras besteiras, afirmações vergonhosas, clamorosas trivialidades, tolices aparvalhadas, inconcebíveis pobrezas de espírito, absolutas ausências de bom gosto, locuções estereotipadas, provérbios, máximas, clichês, chapas, nariz de cera (Portugal), jargões, chavões (chaves grandes), bordões, slogans, rifões, anexins, frases preestabelecidas, pensamentos fixos. Facilitários que, por comodidade, preconceito, medo do insólito, superstição ou ignorância, têm os seus sentidos e poder diferenciador esbatidos, são recebidos e repassados (como moeda de mercado), estabelecendo-se, facilmente, como preceitos científicos, artísticos, filosóficos, psicológicos, pedagógicos, que armam e fingem conhecimentos; resistem às tentativas de refutação; apóiam-se em fatos favoráveis; estão na origem de aplicações ou de situações que funcionam; e assim por diante.